Notícia Tota Pulchra de Novembro de 2025
O mês de Novembro foi, para a Tota Pulchra em Lisboa, um tempo de homenagem e de continuidade. A programação consolidou-se, as audiências cresceram e, entre recitais, visitas guiadas e presença em contextos de fragilidade social, confirmou-se uma linha de trabalho que cruza património, música e proximidade humana. Ao mesmo tempo, começaram a desenhar-se os contornos de Dezembro, com um Advento vivido entre a escuta da Palavra, a linguagem da arte e a tensão muito concreta entre consumismo e Revelação.
No dia 11 de Novembro, a Igreja da Pena acolheu mais uma sessão dos “Recitais ao Ocaso”, desta vez em registo de homenagem aos caídos da Primeira Guerra Mundial. Apesar das condições meteorológicas pouco favoráveis, cerca de duas dezenas de pessoas subiram à colina para escutar um programa de órgão que evocou, na sobriedade do fim de tarde, a memória de um continente ferido. A iniciativa, promovida pela Academia da Pena em parceria com a Tota Pulchra, manteve a matriz que vem sendo trabalhada, e na qual a música de qualidade, enquadramento espiritual discreto se consolidou num convite a parar, no momento exacto em que a cidade acelera para a noite.
Poucos dias depois, a 15 de Novembro, o foco deslocou-se para o Chiado. Na Basílica dos Mártires, o recital “Flaut-In / Fl-Out” reuniu órgão e flauta transversal num diálogo de timbres que foi abrindo, já, a porta ao tempo de Natal. Perante cerca de meia centena de participantes, Rui Valdemar e Ana Rei percorreram um repertório de matriz francesa com adaptações para órgão e flauta, introduzindo ao mesmo tempo peças com sabor de Advento. Este recital, integrado na programação própria da Tota Pulchra com o apoio da paróquia, reforçou a Basílica dos Mártires como um dos lugares centrais da proposta artística da delegação portuguesa, aqui com um espaço onde a liturgia, a música e a vida quotidiana do centro da cidade se encontram de forma natural.
Ainda no dia 15, ao final da tarde, a atenção voltou à Igreja da Pena com uma nova edição da “Visita Guiada com Música”. Sob o tema “Hagiografia em mês de Todos-os-Santos”, cerca de quinze participantes, muitos deles inscritos previamente por curiosidade histórica e patrimonial, foram convidados a olhar de perto a ornamentação pré-terramoto de 1755, a iconografia presente nos altares e a forma como a santidade se inscreve na pedra, na madeira dourada e nas telas. Para a ocasião, foi exposta a relíquia de São Filipe Neri, sublinhando a dimensão espiritual de um espaço que é, ao mesmo tempo, monumento e igreja viva. A Missa vespertina das 18h00 prolongou discretamente esta experiência, com alguns participantes a permanecerem, num prolongamento natural da visita para a celebração.
Paralelamente a esta programação mais visível, Novembro foi também marcado por mais uma sessão da iniciativa “Arte na Rua”, integrada no programa “Escuta Activa” da Comunidade Vida e Paz. Quinzenalmente, à quinta-feira, dois a três voluntários ligados à Tota Pulchra juntam-se a voluntários da Comunidade Vida e Paz na zona envolvente da Estação do Oriente, levando livros a pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Mais do que uma distribuição de exemplares, trata-se de um gesto de presença, onde se convida a parar, ouvir, oferecer um livro como quem oferece tempo e reconhecimento. As reacções têm sido muito positivas e confirmam que, mesmo nos espaços mais marcados pela precariedade, a cultura continua a ser percebida como um sinal de dignidade.
É a partir deste tecido, com recitais em igrejas históricas, visitas guiadas com música, presença regular junto de quem vive na margem, que se desenha a programação de Dezembro, e já com o Natal como horizonte.
No dia 9 de Dezembro, a Igreja da Pena volta a receber um “Recital ao Ocaso”, desta vez explicitamente centrado no tempo de Natal. Ao final da tarde, às 17h30, o órgão dará voz a um repertório de tradição francesa, inglesa e norte-alemã, associando corais e melodias de Natal a um ambiente de recolhimento que contrasta com a agitação típica desta época do ano. Na mesma linha de continuidade, a 20 de Dezembro, a manhã e a tarde serão partilhadas entre o Chiado e a Pena. Às 11h15, a Basílica dos Mártires acolherá mais um recital da Tota Pulchra com música de Natal para órgão, e às 16h30 a Igreja da Pena voltará a abrir portas para uma nova Visita Guiada com Música, desta vez também sob o signo do Natal e do ciclo litúrgico que conclui o ano.
Entre estas datas, a 18 de Dezembro, a reflexão toma lugar em primeiro plano. Na Capela da Carreira, às 19h00, terá lugar a conferência “É Natal outra vez: entre o consumismo e a Revelação”, integrada no Ciclo de Conferências Tota Pulchra: Sociedade, Religião e Cultura. O painel junta Paulo Pereira da Silva, CEO da multinacional Renova, o Pe. Joaquim Pedro Quintela e o assessor parlamentar Miguel Donões. O objectivo é claro. Convida-se a pensar, a partir de experiências concretas – empresarial, pastoral e política – de que modo o Natal se tornou, simultaneamente, um dos momentos de maior pressão consumista e um tempo em que a proposta cristã de um Deus que se faz próximo continua a interpelar consciências, estilos de vida e prioridades.
Entre Novembro e Dezembro, a Tota Pulchra vai assim desenhando em Lisboa um itinerário que passa pela memória histórica, pela música, pelo património, pela reflexão pública e por uma presença discreta junto de quem mais precisa. No centro de tudo, permanece a mesma intuição: a beleza não é um luxo, mas uma forma concreta de cuidado, com a cidade, com as comunidades e com cada pessoa.
