Senhoras e Senhores,
Em 1891, Leão XIII apresentou-nos a Encíclica Rerum Novarum como carta de navegação que devolve a luz a um mundo que se começa a aparentar cada vez mais sombrio. No cerne da sua tese figurava uma pergunta simples, mas no entanto, perene. Como ordenar capital e trabalho sem esmagar a pessoa?
Hoje, mais de um século depois, volta a ecoar na Praça de São Pedro o nome Leão, e muitos de nós perguntamo-nos se não será um modo de nos recordar que a pergunta permanece a mesma, apenas com novos instrumentos. Deixa de ser a fábrica, para ser a plataforma, ao invés da sirene do turno, o ping da notificação, em vez do salário o valor dos dados e a opacidade dos algoritmos.
Contudo, não nos deixemos enganar, a analogia histórica não é mero artifício retórico. Em ambos os momentos, qualquer uma das revoluções tecnológicas reconfigura o mercado de trabalho, redistribui o centro do poder e reorganiza a vida quotidiana. Como então, também hoje cresce o risco da precarização e do desenraizamento social. E também hoje os mecanismos de mediação – tais como os sindicatos - ficam muitas vezes atrás da inovação. A diferença é que actualmente a máquina não executa apenas, ela é agora capaz de ver, decidir e predizer. Esta nova gramática digital força-nos, inevitavelmente, a reflctir constantemente sobre as coisas novas.
Hoje, estamos na quinta Revolução Industrial, três se volveram sem que houvesse profunda reflexão da centralidade da pessoa no seio da mudança social, tecnológica, laboral e económica que o mundo viveu em pouco mais de um século. Se o Evangelho nos fala constantemente – e sempre com verbos de acção – de relação e de interação entre nós – humanos – urge pensar em como é que colocamos nova centralidade numa relação que deixa de ser dual. E atenção, dual porque deixa de ser entre humanos com humanos e destes com Deus. Passa a ter, nos mais variados aspectos sociais, laborais e económicos um novo interlocutor. Que tanto assume o papel de mediador, intermediário, como também de substituição.
Mas demos ainda um passo atrás, e atentemos à não casualidade da escolha do nome Leão pelo Cardeal Prevost.
Se João Paulo I representa uma claríssima rotura com o passado e um grande passo em frente na modernização da Igreja e da sua abertura à preparação do novo Milénio, especialmente necessária depois do Concílio Vaticano II e das reformas litúrgicas, continuada – em certo ponto – forçosamente por João Paulo II. A escolha de nomes pontifícios dos últimos 60 anos representaram statements [arranja a palavra portuguesa para isto, manifestos?] individuais que não tornam possível separar a escolha do nome com os actos prioritários do pontificado.
Evidentemente que pouco podemos especular sobre o que seria o pontificado de João Paulo I. Mais difícil se torna ainda tentar resumir o longo reinado de João Paulo II. Contudo, é-nos hoje clara a sua influência em aspectos sociais e doutrinários que marcaram o início do Século XXI como o conhecemos. O combate ideológico ao comunismo, as preocupações com as relações diplomáticas, a atenção aos mais jovens, são alguns dos aspectos que merecem destaque neste plano comparativo.
Com breve recuperação dos nomes clássicos do papado, Bento XVI volta a apelar ao plano filosófico, ideológico e ritualístico. O combate ao relativismo, a recuperação da tradição litúrgica e a produção teológica são os aspectos que mais sobressaem do seu peculiar pontificado.
Por sua vez, Francisco, numa nova escolha de nome que dispensa o uso de primeiro ou segundo, inaugura uma nova tradição. Alias, se quisermos ser justos, Francisco, inaugura uma nova série de procedimentos e práticas que vão desde os aspectos mais costumeiros do dia-a-dia, até a questões ideológicas que, tal com o São Francisco de Assis, colocam o ser humano num plano que não é tanto político, mas mais societal, ecológico, fraterno.
Chegamos, então, à questão simbólica que dá título a esta conferência. O que significa voltarmos ao nome Leão nos dias de hoje?
Sabemos, e não devemos forçar causalidades, que a escolha de um nome papal tem sempre densidade simbólica, e como já vimos, pessoal. Que o novo papa seja o primeiro norte-americano da história é um facto com grande peso institucional, e, que o seu nome Leão XIV ecoe o de Leão XIII, também.
Há, antes de mais, elementos sociodemográficos que importa considerar. É natural que a escolha de um primus inter paris está intimamente ligada com redes interpessoais e institucionais. Contudo, há os tais aspectos sociodemográficos que devemos atentar. É no continente americano que hoje se concentra a maior fatia absoluta de católicos, e, por sua vez, o dinamismo demográfico mais vincado verifica-se em África. Enquanto que nos Estados Unidos, a percentagem de católicos tem permanecido estável, em torno de 19–21% desde 2014, com um perfil etário tendencialmente mais envelhecido, embora com juventude hispânica mais presente. Contudo, nos últimos anos tem se verificado um crescente número de jovens casais católicos, tendencialmente mais tradicionalistas, em especial nos EUA. E devemos fazer uma pequena pausa para reflectirmos no porquê de Leão XIV se ter pouco pronunciado sobre as questões relativas à missa em rito extraordinário, bem como no crescente número de casais – repito, casais – que preferem o tradicionalismo, portanto um outro ritmo. Tudo isto é um mosaico complexo, que desafia leituras simplistas.
Mas voltemos à escolha do nome pelo actual Papa. O próprio não tardou em explicar esta escolha aos Cardeais, dois dias após a sua eleição: "Escolhi o nome de Leão XIV. Há diferentes razões para isto, mas principalmente porque o Papa Leão XIII, na sua histórica Encíclica Rerum Novarum, enfrentou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial. Nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho"
Então, porque é que um Papa americano, em 2025, escolhe este nome e invoca explicitamente a Rerum Novarum e a inteligência artificial no mesmo discurso? A resposta é simultaneamente geopolítica, demográfica e profética.
Em primeiro lugar, estamos perante a dimensão geopolítica. Os Estados Unidos da América são, inquestionavelmente, o epicentro da quinta Revolução Industrial, a revolução da inteligência artificial. É em Silicon Valley, em Boston, em Seattle, que se desenvolvem os grandes modelos de linguagem, os sistemas de automação, as plataformas que já moldam, e que continuarão a moldar, o trabalho, a economia, a educação e as relações sociais. A escolha de um Papa americano, num momento em que esta revolução tecnológica se acelera, não é coincidência ou simples dinamismo social e institucional. É um sinal de que a Igreja precisa de compreender, por dentro, os mecanismos e os riscos desta transformação.
Notar que, Leão XIV, missionário no Peru, bispo de Chiclayo, conhecedor das periferias e da desigualdade – à semelhança de Francisco - traz consigo a experiência de quem viu o impacto brutal das assimetrias globais. Mas, ao ser americano, está também no coração da tempestade tecnológica que hoje redefine o que significa ser humano, trabalhar e viver em comunidade.
Voltemos à dimensão demográfica e atentemos que, nos Estados Unidos – mas também um pouco por todo o continente americano - assistimos a um fenómeno surpreendente: o crescimento dos católicos, especialmente entre os jovens.
Dados recentes revelam que dioceses americanas registaram aumentos de conversões entre 30% e 70%. E em Inglaterra e País de Gales, dos jovens entre os 18 e 34 anos, 11% identificam-se como católicos, isto é, cerca de 41% dos cristãos praticantes, uma inversão notável face às tendências de secularização. Estudos apontam para um crescimento significativo da prática religiosa entre a Geração Z nos Estados unidos, com particular destaque para a Missa Latina Tradicional, que entre 2019 e 2021 registou um aumento de 71% em algumas comunidades. Claro que devemos atender que estes dados são oriundos das próprias comunidades e, em muitos casos, têm ponto de partida em zero. Contudo, esta vitalidade juvenil da fé católica nas Américas e no Ocidente é um sinal dos tempos que não pode ser ignorado. A Igreja parece estar a renascer entre aqueles que nasceram imersos na era digital, e que procuram, precisamente, sentido, comunidade e transcendência num mundo dominado por ecrãs e algoritmos.
Voltemos precisamente aos algoritmos. Depois desta reflexão mais sociológica, importa agora voltar à consideração mais conceptual e prospectiva.
À semelhança de Leão XIII, que enfrentou os desafios da primeira Revolução Industrial, desde o trabalho operário nas fábricas, a destruição da economia agrícola tradicional, a proletarização em massa, a desintegração familiar. Leão XIV confronta-se com desafios como a inteligência artificial, a automação cognitiva, a economia de plataformas, pelos algoritmos que decidem quem recebe crédito, quem é contratado, quem é vigiado. Se no século XIX o problema era a exploração física do operário, hoje o desafio é a dignidade do trabalhador na era da automação e aquilo a que os académicos chamam moral deskilling, ou seja a perda da autonomia moral.
Permitam-me explicar este conceito de moral deskilling. Isto é a erosão da capacidade humana de tomar decisões éticas devido à delegação dessas decisões em sistemas automatizados. À medida que confiamos em algoritmos para decidir quem merece um empréstimo, quem deve ser contratado, quem é suspeito, quem merece cuidados de saúde prioritários, perdemos progressivamente a prática, e, portanto, a competência de fazer julgamentos morais complexos, contextualizados, enraizados na compaixão e na prudência humana. Este fenómeno não é meramente técnico. É antropológico. Quando deixamos de exercer o discernimento moral, comprometemos a nossa humanidade. Tornamo-nos espectadores das nossas próprias vidas, em vez de protagonistas. E isto é uma ameaça directa ao princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja.
A subsidiariedade, desenvolvida originalmente na Rerum Novarum de Leão XIII e formulada de forma mais explícita por Pio XI na Quadragesimo Anno em 1931, estabelece que as decisões devem ser tomadas ao nível mais próximo possível das pessoas afectadas, respeitando a autonomia dos indivíduos e das comunidades menores. Como afirmou Pio XI, "é injusto e, ao mesmo tempo, um grave dano transferir para uma sociedade maior e superior as funções que podem ser desempenhadas por comunidades menores e inferiores". A subsidiariedade é a protecção da liberdade humana contra a centralização excessiva. E seja do Estado, seja dos algoritmos. Quando um sistema de inteligência artificial decide, de forma opaca e centralizada, aspectos fundamentais da vida das pessoas, sem possibilidade de recurso, de explicação ou de compreensão humana, estamos perante uma violação do princípio da subsidiariedade e, em última análise, da dignidade humana.
A dignidade humana, fundamento de toda a Doutrina Social da Igreja, assenta na convicção de que cada pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus, dotada de razão, liberdade e capacidade de amar. E esta dignidade não é negociável. E não pode ser reduzida a dados, a perfis estatísticos, a probabilidades algorítmicas. O ser humano não é uma variável numa equação. É um fim em si mesmo. Quando os sistemas de inteligência artificial tratam as pessoas como meros objectos de processamento de dados, quando as decisões sobre a vida humana são tomadas por máquinas que não compreendem o sofrimento, a esperança, a responsabilidade moral, estamos a instrumentalizar a pessoa. E isto é uma afronta à sua dignidade.
E Leão XIV, nas suas primeiras intervenções públicas, alertou que a inteligência artificial "coloca novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho". Apelou à "responsabilidade e discernimento" no uso da IA, para que esta seja utilizada "para o bem de todos, de modo que possa beneficiar toda a humanidade". Em Julho de 2025, na sua mensagem à Cúpula da Inteligência Artificial para o Bem, organizada pela ONU em Genebra, o Papa advertiu que, "embora a IA possa simular aspectos do raciocínio humano e realizar tarefas específicas com incrível velocidade e eficiência, não pode replicar o discernimento moral ou a capacidade de formar relações genuínas". E acrescentou que a humanidade está "numa encruzilhada, enfrentando o imenso potencial gerado pela revolução digital impulsionada pela inteligência artificial", cujo impacto "é de longo alcance, transformando áreas como educação, trabalho, arte, saúde, governança, forças armadas e comunicação".
Aqui reside a genialidade da escolha do nome Leão XIV. Tal como Leão XIII respondeu à questão social do século XIX com a Rerum Novarum, o novo Papa propõe-nos, implicitamente, uma nova encíclica para o nosso tempo, uma Rerum Digitalium, ou seja, das coisas digitais. Uma resposta da Igreja aos desafios éticos, sociais, económicos e antropológicos da era da inteligência artificial. Uma resposta que não seja tecnófoba nem ingenuamente tecnoentusiasta, mas profundamente humanista, enraizada na dignidade da pessoa, na subsidiariedade, na solidariedade e no bem comum.
Estamos, pois, perante um momento decisivo. A Igreja não pode permanecer em à margem enquanto a sociedade sofre tão profundas e disruptivas mudanças. A escolha do nome Leão XIV é, em si mesma, um programa, um apelo à coragem intelectual, à liderança profética, à renovação da Doutrina Social para que responda, com a mesma clareza e ousadia de 1891, aos desafios de 2025.
Termino com uma reflexão prospectiva. Se Leão XIII ousou desafiar tanto o capitalismo selvagem como o socialismo ateu, propondo uma terceira via. Se ousou defender os direitos dos trabalhadores numa época em que isso era considerado subversivo. Então, Leão XIV e toda a Igreja estão chamados a ousar de novo. Ousar dizer que a inteligência artificial deve servir a pessoa, e não o contrário. Ousar exigir transparência, regulação ética, participação democrática nas decisões tecnológicas. Ousar reafirmar que a tecnologia sem valores humanos, sem compaixão, sem misericórdia, sem discernimento moral, é demasiado perigosa para ser desenvolvida sem limites.
Que a Igreja, inspirada por Leão XIII e guiada por Leão XIV, não se limite a ler os sinais dos tempos, mas que os antecipe e os ilumine à luz do Evangelho. Que uma Rerum Digitalium possa seja a bússola ética para uma humanidade que, mais uma vez, se encontra no limiar de uma transformação radical. E que nunca esqueçamos, que no centro de toda a mudança, no propósito de toda a tecnologia, está a pessoa humana, imagem do Deus vivo, dotada de dignidade inalienável, chamada à liberdade, à responsabilidade e ao amor. Pois, tal como conta na Encíclica: “As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências.”
Muito obrigado.
Rui Valdemar
23 de Outubro de 2025
Capela da Carreira, Lisboa
“A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social.”
