O mês de Outubro reforçou a consolidação da delegação portuguesa da Tota Pulchra como presença activa na vida cultural de Lisboa, numa linha de trabalho que cruza pensamento, música, património e intervenção social. Fiel ao princípio de tornar a beleza um bem público, acessível e ligado à comunidade, a programação apresentou-se coesa, regular e ancorada em três eixos operativos: excelência acessível, continuidade e impacto cívico-cultural.
A 23 de Outubro, na Capela da Carreira, a conferência “Leão XIII/Leão XIV: da Rerum Novarum à Realidade Actual” inaugurou o ciclo “Sociedade, Religião e Cultura”, concebido como fórum permanente de reflexão sobre questões sociais, éticas e culturais. Organizada pela Tota Pulchra em parceria com a Paróquia de Nossa Senhora da Pena, a sessão reuniu Rui Valdemar, delegado nacional da Tota Pulchra, e o professor Manuel Monteiro, com moderação de Luís Francisco Sousa. Partindo da tradição da doutrina social da Igreja para interpelar os desafios contemporâneos, o encontro assumiu um registo de debate informado e acessível. A confirmação de futuras sessões com personalidades da vida económica, política e eclesial consolidou a ideia de um espaço estável de discussão qualificada em Lisboa.
No plano musical, a Tota Pulchra preservou e adensou a sua linha curatorial. A 14 de Outubro, a Igreja de Nossa Senhora da Pena acolheu mais uma edição do “Recital ao Ocaso”, às 17h30, com Rui Valdemar ao órgão. O programa, construído em torno de obras de Anthony van Noordt, Oreste Ravanello, Filippo Capocci e Feliks Nowowiejski, evocou o outono europeu numa atmosfera intimista, onde a luz do fim de tarde, a acústica do templo e a escolha do repertório convergiram para um momento de recolhimento e contemplação. Alguns dias depois, o Recital de Outubro na Basílica dos Mártires, igualmente protagonizado por Rui Valdemar, reafirmou o compromisso com a valorização do património musical e litúrgico em contexto urbano, integrando-se num ciclo que tem aproximado novos públicos deste espaço emblemático do Chiado. Na
mesma lógica de diálogo entre arte e lugar, a visita guiada com música realizada na Igreja de Nossa Senhora da Pena, com comentários de Leopoldo Vaz centrados na talha e ornamentação e intervenções ao órgão por Rui Valdemar, mostrou a eficácia de formatos que articulam mediação histórica, escuta atenta e experiência estética partilhada.
Em continuidade com o caminho iniciado nos meses anteriores, o projecto “Arte na Rua”, desenvolvido em cooperação com a Comunidade Vida e Paz, conheceu em Outubro duas novas sessões, confirmando a dimensão social da estratégia da Tota Pulchra. Com a participação de cinco voluntários, foram distribuídos cerca de 55 livros a aproximadamente 50 pessoas em situação de vulnerabilidade, numa intervenção discreta mas simbolicamente forte: levar palavra, beleza e presença cultural a quem vive nas margens, entendendo a arte como gesto de dignificação e não como ornamento supérfluo. Esta linha de trabalho afirma-se como complemento indispensável à programação concertística e académica.
O conjunto destas iniciativas faz de Outubro um marco de arranque e maturação para a Tota Pulchra em Portugal. O desenho de próximos passos — concertos de Natal e de Reis, novas sessões do ciclo de conferências com figuras da vida pública, reforço das parcerias institucionais e continuidade do voluntariado cultural — confirma uma orientação clara: inscrever, no coração de Lisboa, uma presença regular que trate a beleza não como luxo ocasional, mas como serviço ao bem comum.
Rui Valdemar
